| |
BREVÍSSIMA INTRODUÇÃO
AOS PRINCIPAIS CONCEITOS UTILIZADOS EM CORONELISMO, ENXADA E VOTO,
DE VICTOR NUNES LEAL
RAFAEL THOMAZ FAVETTI
Bacharel em Direito e Mestre em Ciência Política pela
UnB
Professo de Fundamentos do Direito
Assessor do Ministro Sepúlveda Pertence (STF)
INTRODUÇÃO
Ao tratar das principais idéias lançadas no livro
Coronelismo, Enxada e Voto, não se pode deixar de
falar de seu autor, Victor Nunes Leal. Isto porque a história
pessoal de Victor Nunes ajuda a compreender o sistema analítico
lançado em seu livro, além do fato de ser uma história
de vida que enche os olhos daqueles que admiram os “homens
que fazem a diferença”. Desta forma, pretende-se, primeiramente,
contextualizar brevemente o autor para, enfim,
examinar o raciocínio desenvolvido em sua obra.
Nasceu em 1914 , na pequena cidade de Carangola, em Minas Gerais.
Seu pai era agricultor e participava de cooperativas agrícolas
(comunas). Essa convivência de seu pai com a organização
rural no interior do Brasil, que teve grande impacto em sua infância,
foi fato fundamental para seu futuro trabalho de análise.
O cenário interiorano vivido em sua infância, com os
episódios políticos típicos do interior, marcadamente
fundados no coronelismo do interior mineiro, desenvolveram
uma sensibilidade teórica inigualável, em Victor Nunes,
para analisar e explicar os mecanismos e engrenagens deste fenômeno
social.
Quando jovem, dificuldades familiares levaram-no ao Rio de Janeiro,
então Capital Federal, a fim de estudar o curso de direito.
No Rio, encontrou morada com um advogado de renome, Pedro Batista
Martins. O jovem mineiro colou grau em 1936, ano em que já
escrevia para jornais. Pedro Batista Martins foi um dos membros
do grupo de trabalho que confeccionou o anteprojeto do Código
de Processo Civil de 1939; Victor Nunes ajudou-o nos trabalhos e,
também, no Código de Processo Civil Comentado, publicado
também em 1939. O Dr. Pedro registrou, no livro Comentários
ao Código de Processo Civil, com palavras de carinho,
a participação importante do jovem advogado.
Além de jurista e jornalista, atuou como tradutor. Dentre
os livros de maior impacto, traduziu “Poder Político”,
de Hermann Heller (Revista Forense, 1946), um livro essencial para
a Teoria Geral do Estado. Traduziu, também, “O Novo
Código de Processo Civil Italiano”, de Piero Calamandrei
(Revista Forense, 1945), que é considerado um clássico
da literatura processual civil do mundo.
No plano das relações exteriores, representou o
Brasil na IV Reunião do Conselho Interamericano de Jurisconsultos
da OEA (Chile, 1959) e integrou as missões de observadores
estrangeiros às eleições da República
Dominicana, em 1962, e da Nicarágua, em 1963. Lembra-se que
todos esses encontros eram marcados pelo cenário mundial
da guerra fria, fato que dificultava a inserção
dos observadores internacionais, mas que não foi óbice
para a participação ativa do Brasil, através
de Victor Nunes.
No campo o jornalismo, Victor Nunes Leal está no rol das
figuras mais importantes para a história do jornalismo brasileiro.
Foi redator de O Jornal, do Diário da Noite
e do Diário de Notícias; redator da Agência
Nacional, do DIP, redator-chefe da Rádio Tupi
(que era um dos maiores veículos de comunicação
da América Latina) e diretor da Agência Meridional,
dos Diários Associados de Assis Chateubriand.
Participou, indicado por Olímpio Guilherme, da equipe de
Gustavo Capanema no Ministério da Educação,
cuja chefia de gabinete era de responsabilidade do poeta Carlos
Drummond de Andrade.
Exercendo o magistério, aceitou o convite de JK para a Chefia
de Gabinete da Casa Civil da Presidência da República.
Sobre essa fase, comentou:
“O penoso sacrifício quando acumulei a cátedra
com as funções de Chefe da Casa Civil da Presidência
da República: eu precisava reunir dois salários para
cobrir minhas despesas acrescidas, já que a mordomia da época
se limitava ao carro oficial com motorista e gasolina. Consegui
na Faculdade o primeiro horário, bem cedo, mas mesmo assim
ao sair da classe freqüentemente encontrava recados do infatigável
madrugador que era o Presidente Juscelino” .
Não obstante todas as facetas profissionais de Victor Nunes
Leal, a mais marcante para a construção de Coronelismo,
Enxada e Voto é, sem dúvida,a sua trajetória
como professor universitário.
A história tem início na Universidade do Distrito
Federal, que foi extinta e incorporada à Universidade do
Brasil. O titular da Cadeira de ciência política
era o professor André Gros. A Guerra levou Gros a participar
do Movimento da França Livre (depois da guerra,
Gros foi ser Juiz da Corte Internacional de Haia).
Com a vacância da Cadeira, Victor Nunes foi indicado. Nota-se
que ciência política era uma matéria oferecida
pelo Departamento de Filosofia, pois ainda não existia curso
autônomo de ciência política no Brasil. Neste
período, dedicou-se integralmente ao magistério, largando
a advocacia e preparando a tese do concurso para professor titular
(3 anos), cujo título era “O Município e
o Regime Representativo no Brasil – Contribuição
ao Estudo do Coronelismo”.
A banca de exame para a titulação na Cadeira foi
formada por Djacir Menezes (de economia política), Josué
de Castro (da geografia humana) e três professores do direito
(que não eram da Universidade do Brasil) : Pedro Calmon,
Bilac Pinto (o único da banca a tentar aplicar o “coimbrão”,
que era uma série de perguntas a fim de “quebrar”
a tese) e Oscar Tenório.
Victor Nunes Leal, sem fugir dos árduos questionamentos
de Bilac Pinto, foi aprovado com o grau máximo e exerceu
o magistério até 1960, como professor de ciência
política na Faculdade Nacional de Filosofia.
A tese do concurso apresentava uma metodologia nova. Ao virar livro,
o novo título do estudo, Coronelismo, Enxada e Voto,
foi sugerido pelo amigo Emil Farhat, que era publicitário.
Neste ponto, há que se comentar de uma característica
marcante de Victor Nunes: apesar de sua profunda erudição,
não dispensava colaborações de “especialistas”,
como aconteceu com o nome do livro, que foi sugerido por um publicitário.
Na própria feitura da tese, apesar de seu inigualável
conhecimento sobre o assunto, não dispensou novos métodos
em voga nas ciências humanas, marcadamente quantitativistas.
Em verdade, Coronelismo, Enxada e Voto é um livro
fundamental para a metodologia das ciências humanas no Brasil.
O livro só teve uma Segunda edição muito após
de estar esgotado, em 1975, pela editora Alpha Ômega, na série
Política, dirigida por Paulo Sérgio Pinheiro
e com prefácio de Barbosa Lima Sobrinho.
Foi Francisco Iglesias o primeiro a reconhecer a importância
do livro, em resenha publicada na Revista da Faculdade de Direito
da Universidade de Minas Gerais, em 1950. O livro, com um título
bombástico, logo insuflou os debates acadêmicos e se
transformou num divisor de águas, como diz Otto Lara Resende
:
“O livro obteve grande sucesso e repercussão
nos meios universitários, sobretudo nos cursos de ciências
sociais, por marcar um divisor de águas. Até a década
de 30 os estudos de política eram de autoria de autodidatas,
alguns bastante importantes como, entre outros, Tavares Bastos,
Alberto Torres e Oliveira Viana, mas que ressentiam da falta de
uma cultura sistemática e do convívio universitário
com a literatura especializada” .
Em 1984, não aceitou o convite para escrever sobre o coronelismo
no Dicionário Histórico-Bibliográfico do Centro
de Pesquisas e Documentação de História Contemporânea
do Brasil – CPDOC -, sob o fantástico argumento que
não dominava o assunto. O verbete, então, foi escrito
pelo professor José Murilo de Carvalho, que se baseou em
Victor Nunes.
Com a mudança da Capital, Victor Nunes teve função
destacada na organização da Universidade de Brasília
(UnB), coordenando o curso-tronco de direito, economia e administração,
logo depois do curso de ciência política, estruturando
a Faculdade de Estudos Sociais Aplicados (F.A.), que atualmente
agrega apenas os cursos de contábeis e administração,
pois direito é, atualmente, uma faculdade isolada e ciência
política pertence ao instituto de política e relações
internacionais da UnB.
Em 1960, antes de assumir como Ministro do Supremo Tribunal Federal,
exerceu o cargo de Consultor Geral da República. De 1969
em diante, após aposentadoria “forçada”
(pelo AI-5) no Supremo, participou simultaneamente da Sociedade
de Advogados Nunes Leal – Brasília -, do Escritório
Nunes Leal de Advocacia – Rio de Janeiro -, e da Leal, Freitas,
Barcelos e Dória, Advocacia, em S. Paulo.
Mesmo estando totalmente absorvido pelas atividades jurídicas,
não abandonou os estudos e as contribuições
às atividades acadêmicas. Em 1976 prefaciou o livro
de Maria do Carmo Campelo de Souza, Estado e Partidos Políticos
no Brasil. Em 1980, ainda na ditadura, participaria de seminários
do Centro de estudos de Cultura Contemporânea – CEDEC
– e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
– CEBRAP -, sobre direitos humanos.
No Supremo, implementou as chamadas Súmulas, isto é,
o entendimento pacificado do Tribunal para determinados assuntos.
Outra questão levantada na Corte Suprema foi a “argüição
de relevância”, que não conseguiu implementar,
e que agora volta a ser debatida na atual reforma do judiciário.
Após esta breve contextualização, fica claro
que Victor Nunes utilizou-se fortemente de seu vasto conhecimento
jurídico, de sua descritiva linguagem jornalística
e de seu conhecimento dos meandros do poder, além de sua
história pessoal mineira interiorana, para escrever este
clássico das ciências sociais no Brasil.
Enfim, o livro trata de um sistema, da estrutura e maneira pelas
quais as relações de poder se desenvolviam a partir
do município, mostrando que na primeira República
a figura do senhor central absoluto já havia desaparecido.
MÉTODO
Diante do suporte teórico e histórico-pessoal que
detinha, utilizou-se, pioneiramente, do conhecimento empírico,
fundado em dados, para comprovar sua constatação e
análise da vida no interior do Brasil. Inseria, desta forma,
a pesquisa empírica na pauta dos estudos sociais no Brasil.
O enfoque que imprime ao estudo tem um forte caráter institucionalista,
pois enfoca o sistema coronelista enquanto instituição
informal, mas esta questão será melhor explicada ao
longo deste trabalho. Aborda, também, o tema em uma perspectiva
histórica, redescrevendo a arena que propiciou o advento
do coronelismo.
É importante ressaltar que se trata de uma obra de filosofia
política, pois feita para a titulação da cadeira
de um departamento de filosofia; entretanto, a obra é muito
mais do que isso. Aproximando-se mais da ciência,
devido ao método utilizado, a tese (seria
melhor “a síntese”) se afasta da filosofia, e
o mais importante, afasta-se do direito (muitos, senão a
maioria, dos professores da filosofia eram juristas), não
recorrendo primordialmente a um enfoque jurídico do tema.
Na versão em inglês, publicada pela Cambridge University
Press na série de Estudos latino-Americanos, o prefácio
do professor Malcom deas acentua a importância de caráter
metodológico do livro, dizendo que “representa
um marco divisório dos estudos de ciência política
no Brasil, constituindo o início da fase universitária
desses estudos”.
Outro aspecto metodológico importante: utilizou-se, ao
longo do texto, das explicações de outros pesquisadores
e teóricos sobre certos conceitos, como, por exemplo, a origem
da palavra coronelismo, que foi absolutamente explicada, em nota,
pelo historiador e filólogo prof. Basílio de Magalhães.
Penso que esta decisão faz ciência, pois é a
acumulação do conhecimento aplicada
.
Ressalta-se que sua formação jurídica, sob
as asas de Pedro Batista Martins, foi com ênfase no processo
civil. Ora, o método em direito é o processo. Daí
a grande preocupação para a metodologia que imprimiu
em seu texto.
ALGUNS DOS CONCEITOS CENTRAIS, ANÁLISE E APLICAÇÃO
AOS FATOS HISTÓRICOS FUNDAMENTAIS
Quando se analisa o Coronelismo, Enxada e Voto, tentar
apontar os conceitos centrais do livro torna-se uma tarefa árdua.
Isto ocorre porque, a cada leitura, surgem novos conceitos que se
pode classificar como centrais. Portanto, a única alternativa
viável que visualizo para responder a questão lançada
para este trabalho (quais os conceitos centrais utilizados para
fazer a análise política), é falsificar a enormidade
literária da obra e apontar os conceitos que penso serem
os centrais, ressalvada minha deficiência em extrair todos
os signos que o livro propõe. Confesso que nesta mea
culpa reside uma profunda admiração ao autor,
que espero não interferir no desenvolvimento deste trabalho
acadêmico, pelo contrário, tentarei instrumentalizar
a admiração para otimizar o trabalho.
A primeira idéia lançada pelo autor é a chave
de todo o raciocínio que se desenvolverá ao longo
do texto. Victor Nunes concebe o coronelismo como “resultado
da superposição de formas desenvolvidas do regime
representativo a uma estrutura econômica e social inadequada”
. Esta idéia de superposição
das formas do sistema político formal eleitoral desenvolvido
a uma estrutura interiorana deficiente é a chave para se
entender o que é e como funciona o coronelismo.
Frente a superposição, continua dizendo que o coronelismo
é um “compromisso, uma troca de
proveitos entre poder público, progressivamente
fortalecido, e a decadente influência
social dos chefes locais, notadamente senhores
de terras" .
Portanto, a base de sustentação do fenômeno
é a estrutura agrária do interior
do Brasil, que fornece os subsídios necessários para
manifestação do poder privado. Paradoxalmente, coloca
o pesquisador, essa manifestação é alimentada
pelo poder público, em função do sufrágio
e do regime representativo. Cria-se, assim, um
círculo, onde o governo legitima-se através dos votos
de cabresto e os coronéis mantêm-se alimentados pelos
cofres públicos.
Deste círculo vicioso surgem as características
secundárias do coronelismo.
O mandonismo manifesta-se na perseguição
aos adversários, tornando as relações entre
os agentes políticos adversários extremamente hostis.
Por outro lado, aos amigos tudo deve ser feito, caracterizando
o filhotismo, que somado a exacerbada incultura
do povo do interior, gera uma desorganização
na administração municipal que favorece ainda
mais o sistema coronelista.
A abolição do regime servil e a proclamação
da República deram uma importância fundamental para
os votos rurais, crescendo, assim, a influência política
dos donos de terras, pois a dependência do eleitorado rural
aos coronéis (donos de terra) mostrava-se completa. A superposição
do regime representativo a esta situação dependentista
do povo rural, possibilitou a existência do voto de
cabresto, outra característica secundária
do coronelismo.
O compromisso entre o poder público e os donos de terra
desaguou numa postura governista dos coronéis
e do sistema como um todo. Essa função eleitoral governista
do coronelismo era a força que alimentava o sistema.
“Por tudo isso, o fenômeno estudado é característico
do regime republicano, embora diversos dos elementos
que ajudam a compor o quadro do coronelismo fossem de observação
freqüente durante o Império e alguns deles no próprio
período colonial. Já se notou, aliás,
mais de uma vez, que uma excursão pelo interior do Brasil
eqüivale, de certo modo, a uma incursão no passado nacional”
.
Nota-se, assim, que o coronelismo foi uma construção
histórica dos sistema agrário brasileiro,
fundado na decadência do poder privado dos
donos de terras e no fortalecimento do poder público,
funcionando como processo de conservação do conteúdo
residual do poder privado. O coronelismo surge como uma superação
do patriarcalismo, que caracteriza-se pela concentração
do poder econômico, social e político no grupo parental.
“Chegamos, assim, ao ponto que nos parece nuclear para
a conceituação do coronelismo: este sistema político
é dominado por uma relação de compromisso entre
o poder público privado decadente e o poder público
fortalecido” .
A idéia de compromisso revela, a primo locu, uma
fraqueza de ambos os lados. Mas na Primeira República o aparelho
estatal já se encontrava desenvolvido, podendo, dessarte,
questionar sobre a real necessidade da troca de favores. A resposta
para o compromisso surge da existência da massa eleitoral
residente no interior, criada pelo próprio regime republicano,
extremamente dependente e estreitamente vinculada ao coronel.
Quando Victor Nunes usa a palavra classe, coloca
no sentido weberiano de classe positivamente privilegiada de donos
de terras (coronéis). O autor acreditava que a urbanização/municipalização
diminuiria os efeitos do coronelismo, pois diluiria com a dominação
tradicional, que é outro conceito weberiano. O livro
mostra, como já foi explicado, o patrimonialismo
(weber) das oligarquias locais.
Prosseguindo na tentativa de apontar os conceitos centrais do
livro e de como estes conceitos se aplicam aos fatos históricos
fundamentais, claro está que o coronelismo é uma forma
de clientelismo de Estado, onde usa-se recursos
públicos para manter o poder privado. Entretanto, Victor
Nunes faz uma ressalva, dizendo que, em certa situação
histórica, o sistema coronelista foi importante no sentido
de dar um mínimo aparato social ao povo do interior agrário,
pois o Estado, mesmo desenvolvido, não chegava aos cantos
mais distantes e o sistema coronelista cumpria esta função.
No capítulo segundo, traz a questão do federalismo.
O princípio básico do federalismo é a descentralização
política e administrativa e tem que alcançar o ente
político primordial, onde as pessoas vivem, que é
o município. Entretanto, com o fim do presidente da província
indicado pelo poder imperial e o advento do governador eleito do
estado, o chefe do poder federal tinha de compor com com os governadores
gerando um sistema que consolidasse, simultaneamente, o governo
federal e os governos estaduais. Quem iria sofrer as conseqüências
dessa política seriam os municípios. O poder dos Estados
era concentrado à custa dos municípios, já
desorganizados pelo filhotismo e pela incultura do povo.
Assim, a forma mais barata para o poder do Estado se manter (através
do voto) era o sistema coronelista. Da mesma forma que no âmbito
federal/estadual imperava a política dos governadores,
no âmbito estadual/municipal reinava a política
dos coronéis. O preço pago por toda esta
estrutura de políticas foi o sistemático amesquinhamento
do município.
A questão do pacto federativo volta à tona no capítulo
seguinte (IV), que trata das receitas municipais. Comprova, empiricamente,
que houve, no terreno formal judicial uma limitação
jurídica da autonomia municipal. Alerta, entretanto, “que
foi no terreno extralegal que a escassez da receita dos municípios
mais contribuiu para torná-los dependentes dos favores do
governo estadual, para a execução de seus serviços
mais indispensáveis. E este fenômeno, como já
acentuamos, estimulou grandemente o conformismo característico
da nossa vida política do interior em relação
à situação dominante nos Estados”
.
O capítulo V, intitulado Organização Policial
e Judiciária, faz uma descrição histórica
do poder policial no período colonial, no Império
e nos primórdios da República. Explica o surgimento
da Guarda Municipal, de onde surgiu a figura do “coronel”.
Trata das vinculações políticas do poder judiciário,
clientelista e nepotista, e do tribunal do juri, ligado ao chefe
político local.
O filhotismo e o mandonismo eram catalisados pelo aparato policial
e legitimado pelo judiciário. A ligação entre
o coronelismo e poder judiciário diminuem na medida que aumentam
as garantias dos magistrados. Este aspecto institucional aplica-se
também, na análise do autor, à legislação
eleitora: a medida que se aprimora a legislação eleitoral,
se enfraquece o sistema coronelista.
Há que se ter bastante cuidado ao se analisar esta questão.
O fortalecimento do poder público não acompanha o
enfraquecimento do coronelismo, ao contrário, consolida o
sistema. É o aperfeiçoamento das instituições,
das regras, das normas (cita muito o código eleitoral de
1932) é que vai contribuir para abalar o coronelismo. Está
clara, neste ponto, o viés institucionalista de Victor Nunes.
Entretanto, a questão básica do coronelismo é
a estrutura agrária. Se mudanças substanciais não
são tomadas para modificar a estrutura agrária, o
sistema coronelista adapta-se as circunstâncias, “abandonando
os anéis para conservar os dedos” . Cita a legislação
trabalhista um como meio para se abalar a estrutura agrária
(outra manifestação clara de seu enfoque institucionalista).
Enfim, o coronelismo é:
a)função policial;
b)função de busca de recursos e
c)função jurisdicional de dependência.
O desenvolvimento histórico da colônia para o Império
e deste para a República propiciou o surgimento do fenômeno
do coronelismo, tão forte na República Velha e com
vários resquícios até os dias atuais, que Victor
Nunes magistralmente narrou em seu Coronelismo, Enxada
e Voto.
Voltar
|
|