ENTREVISTA COM O SR. SYLVIO NUNES LEAL SOBRE A VIDA DO SR. MINISTRO VICTOR NUNES LEAL

O SR. SYLVIO NUNES LEAL – Estou interessado.

Pode ligar.

O SR. ENTREVISTADOR – Pode falar.

O SR. SYLVIO NUNES LEAL – Quando o Victor foi nomeado Ministro, nas reuniões, nas sessões do Tribunal, ele levava uns cadernos. Todo acórdão ele anotava, anotava tudo direitinho, porque, antes, uma causa hoje é decidida de um modo; amanhã, é decidida de outro. Chegou a um ponto, um dia o Victor estava em casa, a filha de um ministro, cujo nome não me recordo, chegou e disse: Dr. Victor, meu pai mandou saber sobre esse caso assim, assim, se já tem aí algum acórdão, alguma coisa sobre ele. Aí, ele esperou um pouquinho e disse: não sei, deixe-me consultar aqui os meus livros. Acho que foi seu pai o relator de um caso igual a esse. Aí, foi lá e pegou. O pai dela, em uma decisão anterior, tinha decidido um caso igualzinho àquele. Ele nem lembrava mais. Ele disse: tem aqui, foi seu pai que decidiu. O resultado foi esse assim, assim. A súmula - porque eles fazem a súmula depois - está aqui. O próprio ministro decidiu de um modo, mas aí ele decidiu de modo contrário.

(Pausa)

Quando o Dr. Pedro Batista Martins foi designado para Carangola, meu pai era um homem influente lá, tinha muitas relações, então, arranjou muitas causas para ele.

O SR. ENTREVISTADOR – Então ele advogou muito tempo lá?

O SR. SYLVIO NUNES LEAL – Ele ficou ocupado, porque o Quartis era famoso lá. A nossa amizade vai daí. Então, a gente foi para lá morar com ele, pois meu pai não podia pagar, porque ficou completamente arruinado.

(Pausa)

Meu pai comprou um jipe velhaco, e o motorista começou a ensinar o Victor a dirigir. Não era como hoje, não era o pé que acelerava, acelerava em cima; tinha o chamado “bigode” não é? Você puxava para lá, puxava para cá com a mão para acelerar. Só tinham duas mudanças: primeira e segunda. Então, o Victor estava lá e no caminho tinham umas toras, eu ao lado dele. Não sei o que aconteceu lá: pá! Bateu o carro, amassou a sua frente. O motorista disse: Nossa Senhora, Nossa Senhora do Matinho! E aí corremos para casa e fomos para o quarto. O Victor pegou o livro de Inglês e ficou lá, nós ficamos estudando e ele traduzindo. Eu perto dele era aluno.

O SR. ENTREVISTADOR – Mesmo sendo mais velho?

O SR. SYLVIO NUNES LEAL – A gente, com cinco anos, já sabia ler e escrever, pelo menos o alfabeto. Então a gente foi lá para o quarto com medo de apanhar, né? De levar uma surra. Então, a gente começou a ler o livro de Inglês, que dava já no Ginásio. Quando papai chegou, viu-nos estudando e falou: O que vocês fizeram comigo? Mas felizmente não bateu, não. Dessa vez...

O SR. ENTREVISTADOR – Vocês escaparam.

(Pausa)

O SR. SYLVIO NUNES LEAL – Tanto que ele tinha facilidade para fazer amizade, porque ele era desprendido. Nesse ponto, ele herdou do meu pai; ele não era ambicioso, não era egoísta; ele gostava de ajudar aos outros. O Victor gostava de ajudar. Ele tinha facilidade para conversar, toda vida foi muito modesto, nunca contou vantagem de nada, por isso aquele advogado que foi à Marimbá não achou nada, porque eles queriam encontrar um sujeito todo pomposo, mostrando o que fez. Tem sujeito que começa a falar que fez isso, fez aquilo, para mostrar que tem inteligência, conhecimento. Ele fazia igual à violeta, que fica escondida, mas como cheira muito seu perfume, ela dá o seu sinal.

(Pausa)

Talvez não, não sei. O Victor era estudioso, de modo que fundou a revista lá.

O SR. ENTREVISTADOR – Depois, ele foi para o Rio.

O SR. SYLVIO NUNES LEAL – Acho que foi isso mesmo, devido à facilidade que ele tinha para estudar e tudo. Durante o curso todo, foi o melhor aluno.

O SR. ENTREVISTADOR – Interessante isso.

O SR. SYLVIO NUNES LEAL – Aí, eu falei que ele fez um trabalho sobre D. Pedro I. Pois é, eles falaram que um professor não seria capaz de apresentar isso. O Victor lia muito, tinha facilidade para escrever, fazia poesia também.

O SR. ENTREVISTADOR – Ele era um polivalente.

O SR. SYLVIO NUNES LEAL – Mas não se dedicou à poesia não. Lembro-me de que, quando éramos meninos, quando jogou futebol lá, fez um discurso: esporte bretão, não sei o quê, porque foram os ingleses que inventaram o futebol, não é? Ele falou: o esporte bretão, não sei o quê.

(Pausa)

Então, minha professora se chamava Vírgula. O pai dela era um médico excêntrico, então falou assim: vou botar no nome dos meus filhos os sinais da pontuação. E a minha professora se chamava Vírgula. A esposa do professor Augusto Amarantes, que era professor do Ginásio, chamava-se Cifra e o outro se chamava Cifrão. Botou o nome da pontuação, não é?

Porque também tinha hora de brincar, não é?

(Pausa)

Porque a pessoa não pode perder a alma de criança, senão o sujeito envelhece. Senão perde aquela noção de compreender a vida. Você tem que ter esse espírito de criança.

O SR. ENTREVISTADOR – Para a vida inteira levar isso.

O SR. SYLVIO NUNES LEAL – Eu me lembro que MacArthur – que é general –, em um discurso dialético, falou que o homem não tem a idade da sua certidão de nascimento; há muitos homens velhos que têm alma de criança, jovem, e há muito jovem que tem alma de velho. Isso escrito numa linguagem bonita, bem elaborada. Então é isso, há pessoas que são velhas e têm alma de jovem, e outros jovens com alma de velho.

O SR. ENTREVISTADOR – Vocês sempre tiveram essa alma de jovem?

O SR. SYLVIO NUNES LEAL – O segredo é que meu pai estimulava muito a estudar. Lá em Alvorada, nós tínhamos todos os livros principais, de literatura portuguesa e brasileira. Então, Eça de Queiroz, Júlio Dantas, Júlio Diniz, Camilo Castelo Branco, Feliciano de Castilho, essas obras todas nós tínhamos lá em casa. Então, nós gostávamos de ler, sabe?

(Pausa).

O respeito dele é uma coisa tremenda. Mas, nesse dia, ele não zangou, não.

O SR. ENTREVISTADOR - Não brigou, não.

O SR. SYLVIO NUNES LEAL - Ele se deitava cedo e se levantava cedo. Cedinho se levantava. Às sete horas, já estava recolhido na cama. A gente andava com jeitinho para não fazer barulho, senão ele ficava bravo, sabe? Era assim, um respeito e um medo. Àquela época, as crianças tinham medo dos pais, não é?

O SR. ENTREVISTADOR – É porque o pai corrigia, não é?

O SR. SYLVIO NUNES LEAL – O pai brincava com a gente, e tal. Naquela época, era comum as famílias se reunirem à noite; tinha jogo de prenda, tinham outras coisas para passar o tempo. Eu me lembro de que, em uma ocasião, chegaram dois nortistas lá. Eles ficaram assistindo e falaram: “O senhor dá licença, nós vamos embora, eu sou avexado”. E ele perguntou: Você é avexado? Por quê? O que aconteceu? Porque, avexado, para eles, é apressado. Ele ficou preocupado.

(Pausa)

Ele começou a vida, pense bem na coragem dele: sair do ginásio e ser repórter no Rio de Janeiro.

O SR. ENTREVISTADOR – Ele escreveu um jornalzinho já no ginásio, não foi isso?

O SR. SYLVIO NUNES LEAL – Na verdade, ele fundou a Revista “O Estudantil”.

O SR. ENTREVISTADOR – Com quantos anos ele fundou a Revista?

(Pausa)

O SR. SYLVIO NUNES LEAL - Quando ele estava no quinto ano, não sei que idade ele tinha. Ele é que fazia tudo na revista. O pessoal fazia os artigos, ele corrigia, para não sair errado.

(pausa)

Mas, em casa, à noite, nessas reuniões, quando iam essas pessoas lá, a gente se divertia muito. O Merildo era muito acanhado. O Victor era mais solto.

O SR. ENTREVISTADOR - O senhor era mais tímido?

O SR. SYLVIO NUNES LEAL – Eu era de uma timidez danada. O meu pai era o seguinte: a gente não podia fazer coisa errada. O Victor, por exemplo, quando era menino, comprou uma máquina fotográfica e tirou o retrato de um empregado. Revelou aquilo e cobrou dele. Meu pai passou um sabão nele!

O SR. ENTREVISTADOR – Cobrou do empregado?

O SR. SYLVIO NUNES LEAL – Como você faz uma coisa dessas? De modo que nós não temos aquele espírito de comerciante.

(Pausa)

Houve uma ocasião em que, na hora do almoço, meu pai comprou umas uvas – gostava de doce como aquele. Eu e o Victor estávamos na mesa com uma vontade danada de comer as uvas. Eu tirava uma uva e o Victor tirava outra. Daí a pouco comemos tudo. Nunca comíamos aquilo; uva era coisa difícil, coisa rara.

(Pausa)

Numa outra ocasião – nós tínhamos um medo danado de nosso pai, porque ele era muito rigoroso; brincava com os filhos, mas um rigor danado -, quando o nosso carreiro estava puxando uma tora, dez dúzias de boi puxando aquela tora.

E o vaqueiro não se incomodou. Pegou aquela tora, foi muito bem, eu e o Victor debaixo daquela tora. Quando fui descer o morro, a tora foi para o canto e eu caí lá. A tora passou na minha perna e a esfolou, felizmente não a quebrou. Aí, fomos para casa, o Victor escondido, foi lá e apanhou água com sal e passou para ninguém saber, nem meu pai. Quando ele chegou, o que fez? Foi... (ah! Não, não foi nessa vez). Então, ninguém ficou sabendo.

Meu pai tinha uma espingarda carregada e a pendurou no quarto e quando meus primos chegaram lá - tínhamos muita amizade com eles -, o Victor começou a sacudir: “- olha aqui a espingarda!” Até que saiu o tiro dentro de casa, bateu na cômoda e arrebentou a fechadura. E perto da cama estava o Júlio deitado ali, porque era neném. O Victor, coitado, ficou apavorado. De repente, subiu lá no telhado e ficou lá no topo, com medo de apanhar, porque ia apanhar mesmo. Então, quando meu pai chegou, disse: “desce daí, menino!” Até que ele obedeceu e desceu. Pegou a escova e bateu na mão dele até ficar cheia de calos.

Na minha concepção, quem deveria levar aquela coça era ele, porque tinha deixado a espingarda armada no lugar que criança podia apanhar. Ele é quem deveria apanhar, não o Victor.

(Pausa)

O SR. ENTREVISTADOR – Consertava as coisas quando era criança, não é?

O DR. SYLVIO NUNES LEAL - Se fosse engenheiro, eu iria descobrir um aparelho que emitisse um som que não percebêssemos, mas que os ratos e outros insetos percebessem, porque eles têm um ouvido muito mais apurado que o nosso não é? Por exemplo, os cães, ninguém ouve, e os cachorros sabem. Hoje tem esse aparelho, custa caro. Você bota no paiol, por exemplo, o rato não agüenta aquele som.

O SR. ENTREVISTADOR – Por que, Dr. SYLVIO, o senhor acha que ele escolheu o Direito, ele tinha facilidade para tudo?

O DR. SYLVIO NUNES LEAL - Mas, também, gostava de ler. Direito era a única profissão que ele podia estudar. Era a única que podia trabalhar e estudar. Ele não podia estudar Medicina.

O SR. ENTREVISTADOR – Medicina não dava?

O DR. SYLVIO NUNES LEAL - Outra profissão ele não podia.

Medicina não podia, dentista também não. Outra qualquer ficava difícil para ele, a única outra coisa em que poderia trabalhar era como repórter. E tinha mais vocação, também, para isso. Eu acho que tinha, não sei se tinha mais vocação para isso.

(Pausa)

Ele era muito organizado. Lia, todos os dias, os jornais; alguma coisa ele recortava, colocava no arquivo. Não perdia tempo, ele estudava muito. Ele tinha facilidade, mas estudava muito. Se tinha que dar um parecer ou alguma coisa para resolver, procurava em toda a jurisprudência. Ele estava sempre atualizado, estudando.

Isso que eu vou falar é verdade: um promotor de Vitória, quando entrei na Vale do Rio Doce, falou comigo: “Eu fui a Brasília e passei lá pelo Tribunal, vi uma luz lá em cima e subi, isso era tarde da noite; cheguei lá e encontrei o Dr. Victor trabalhando à noite.”

(Pausa)

Disse ele: ”Estão reclamando, olha o relógio aí, ainda faltam dez minutos”. Todo mundo pegava o relógio e falava: realmente, ainda faltam dez minutos. Ilusionismo. Como o sujeito pode fazer isso? Se eu fizer isso, tenho a impressão de que estou sofrendo uma ilusão, não acreditava muito. Respeitava-o, tinha um coração muito bom. Ele praticava a religião sem ser religioso praticante. O homem deve ser bom porque deve ser bom, não é porque vai para o céu, não.

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